quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Estado hebraico proíbe partidos árabes de participar nas próximas eleições

Esta notícia é reveladora do quão discriminatório e pouco democrático é o estado de Israel. Aproxima-se cada vez mais do estado de Apartheid ("vida separada") que se viveu (e ainda se vive...?) na África do Sul. Esta notícia cabe aqui porque expressa bem a filosofia do "se não estás connosco estás contra nós". É engraçado ver as desculpas da Comissão Eleitoral israelita para tal decisão. Acusam os partidos árabes de racismo, quando é precisamente isso que a Comissão está a fazer. A acusação de apoiarem a luta armada contra Israel é um pouco estranha. Apoiam como? Financiam, vendem armas ao Hamas (como o governo de Israel fez quando este movimento era apenas um movimento separatista na Palestina)? Apoiam ideológicamente a luta armada contra Israel (que não é mais do que um: "defendam-se de Israel como puderem")? Então e depois? Israel não é uma democracia? Não existe liberdade de expressão?
Outra expressão usada interessante é "os árabes que (...) não fugiram quando o Estado de Israel foi criado". Que não fugiram??? Os coitados foram expulsos das suas terras sem ninguém lhes perguntar nada!!! Isto é fantástico!...
Apercebemo-nos de que isto foi possível porque em Israel há uma lei que permite afastar quem defenda violência. Pergunto-me então se guerra não será considerada violência?...
Outra interessante no âmbito deste blog: ser "suspeito de colaboração" é diferente de ser efectivamente colaborador. Aliás, isso é uma técnica muito usada para descredibilizar alguém. Denúncias falsas, investigações infundadas, e puf! sai uma notícia falsa que põe em suspeita a integridade de uma pessoa.
Enfim!... Muita coisa numa só notícia...

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Público de 13.01.2009, versão impressa.
«A Comissão Eleitoral israelita decidiu ontem, por maioria, proibir a participação dos dois partidos árabes, o Balad e a Lista Árabe Unida, nas próximas eleições. A decisão - baseada na proibição de deputados negarem o carácter judaico do Estado, apelarem ao racismo e apoiarem luta armada contra Israel - vai estar agora nas mãos do Supremo Tribunal do país, que terá de se pronunciar até sexta-feira. Os dois partidos têm um total de sete deputados nos 120 lugares do Knesset (parlamento), representando a minoria árabe israelita (cerca de um quinto da população de Israel). Estes são os árabes que vivem no território que é hoje Israel e não fugiram quando foi criado o Estado hebraico em 1948, ficando com cidadania israelita, mas tendo algumas particularidades, como não entrar no Exército, e sofrendo de discriminação (as câmaras de cidades árabes israelitas têm tipicamente menos financiamento do que outras, por exemplo). Os partidos árabes de Israel têm-se manifestado contra a operação militar israelita em Gaza.
Os líderes dos dois grupos visados, Ahmed Tibi e Jamal Zahalka, condenaram a decisão. Tibi, da Lista Árabe Unida, foi o mais reactivo. "Este é um país racista, mas estamos habituados a este tipo de batalhas e vamos vencer", disse, citado pelo diário anglófono Jerusalem Post. "Foi um julgamento político liderado por um grupo de fascistas e racistas que querem ver o Knesset sem árabes e querem ter um país sem árabes."Durante o debate na comissão, onde têm assento todos os partidos, Tibi acusou Israel de levar a cabo um "genocídio" com a sua operação militar em Gaza.
Não é a primeira vez que partidos de extrema-direita advogam medidas contra os partidos árabes de Israel. Mas esta foi a primeira vez que uma proposta deste género - vinda do partido Yisrael Beitenu, de Avigdor Lieberman, obteve apoio suficiente. Isto deve-se também a uma alteração da lei, feita há dois anos, para permitir afastar quem defenda violência.
Mordechai Kedar, analista do Begin-Sadat Centre for Strategic Studies e professor da Universidade Bar-Ilan, de Telavive, explicou ao PÚBLICO, por telefone, que "os deputados destes partidos estavam a apelar aberta e explicitamente à violência contra o Estado". E lembra que o fundador do Balad, Azmi Bishara, era suspeito de colaboração com o movimento xiita libanês Hezbollah durante a guerra do Verão de 2006 e saiu entretanto de Israel, depois de ter sido aberta uma investigação contra si. Um outro membro do Balad, Said Naffa, espera ainda saber se uma visita que fez a Damasco em 2007 vai resultar num processo criminal por "visita a Estado inimigo" e "contacto com agente estrangeiro".O analista israelita sublinha que a decisão vai estar agora nas mãos do Supremo. Mas Kedar imagina que possa acontecer aos partidos árabes de Israel algo semelhante aos islamistas da Turquia, antecessores do actual (e pós-islamista) AKP. "Terão de mudar: vão ter de concorrer com outro nome, talvez com outras pessoas."Avigdor Lieberman felicitou-se por ter vencido a "primeira batalha". "A segunda batalha é ilegalizar o Balad, porque é uma organização terrorista cujo objectivo é causar danos ao Estado de Israel", disse.
O conselho de colonos Yesha elogiou a decisão. Mas adiantou, segundo o diário de grande circulação Yedioth Ahronoth, que espera mais: "O direito ao voto tem de ser negado a todos os que dêem apoio ao terror contra o povo judaico."A última vez que um partido foi proibido de participar em eleições, lembrou o porta-voz da Comissão Central Eleitoral do Parlamento citado pelo diário israelita Ha'aretz, foi o Kach, nos anos 1980, que defendia a expulsão dos cidadãos árabes de Israel.»
Maria João Guimarães

sábado, 18 de outubro de 2008

«10. Os que põem em causa a propaganda são traidores»

«Lord Ponsonby já tinha observado que qualquer tentativa de pôr em dúvida os relatos dos serviços de propaganda era imediatamente considerada uma falta de patriotismo, ou antes, uma traição.»
(...)
«Por conseguinte, está provado que durante um conflito ninguém tem o direito de perguntar em voz alta o porquê da guerra ou de pronunciar a palavra paz sem trair. Os meios de comunicação social dependem tão estritamente das autoridades políticas que num momento delicado lhes é impossível assegurar um verdadeiro pluralismo.
Decerto que as Constituições europeias não dizem que em tempo ode guerra a liberdade de opinião deve ser suprimida, mas na realidade assim acontece. Uma opinião amplamente difundida sustenta que em caso de guerra há que abster-se de qualquer oposição ao seu governo. É de rigor a União Sagrada.
No entanto, é em tempo de guerra que os erros dos governos mais caro podem custar, que a liberdade deveria estar garantida, para poder impedir os governos de causar danos.
Devemos, para não passarmos por traidores, abster-nos de qualquer oposição? Não poderemos ser "a favor" do nosso país se ele tiver razão mas "contra" se ele estiver errado? A justiça e a verdade não exigirão que defendamos os nossos inimigos se eles forem acusados de crimes que não cometeram? Correndo o risco de sermos acusados de alta traição...»