Esta notícia é reveladora do quão discriminatório e pouco democrático é o estado de Israel. Aproxima-se cada vez mais do estado de Apartheid ("vida separada") que se viveu (e ainda se vive...?) na África do Sul. Esta notícia cabe aqui porque expressa bem a filosofia do "se não estás connosco estás contra nós". É engraçado ver as desculpas da Comissão Eleitoral israelita para tal decisão. Acusam os partidos árabes de racismo, quando é precisamente isso que a Comissão está a fazer. A acusação de apoiarem a luta armada contra Israel é um pouco estranha. Apoiam como? Financiam, vendem armas ao Hamas (como o governo de Israel fez quando este movimento era apenas um movimento separatista na Palestina)? Apoiam ideológicamente a luta armada contra Israel (que não é mais do que um: "defendam-se de Israel como puderem")? Então e depois? Israel não é uma democracia? Não existe liberdade de expressão?
Outra expressão usada interessante é "os árabes que (...) não fugiram quando o Estado de Israel foi criado". Que não fugiram??? Os coitados foram expulsos das suas terras sem ninguém lhes perguntar nada!!! Isto é fantástico!...
Apercebemo-nos de que isto foi possível porque em Israel há uma lei que permite afastar quem defenda violência. Pergunto-me então se guerra não será considerada violência?...
Outra interessante no âmbito deste blog: ser "suspeito de colaboração" é diferente de ser efectivamente colaborador. Aliás, isso é uma técnica muito usada para descredibilizar alguém. Denúncias falsas, investigações infundadas, e puf! sai uma notícia falsa que põe em suspeita a integridade de uma pessoa.
Enfim!... Muita coisa numa só notícia...
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Público de 13.01.2009, versão impressa.
«A Comissão Eleitoral israelita decidiu ontem, por maioria, proibir a participação dos dois partidos árabes, o Balad e a Lista Árabe Unida, nas próximas eleições. A decisão - baseada na proibição de deputados negarem o carácter judaico do Estado, apelarem ao racismo e apoiarem luta armada contra Israel - vai estar agora nas mãos do Supremo Tribunal do país, que terá de se pronunciar até sexta-feira. Os dois partidos têm um total de sete deputados nos 120 lugares do Knesset (parlamento), representando a minoria árabe israelita (cerca de um quinto da população de Israel). Estes são os árabes que vivem no território que é hoje Israel e não fugiram quando foi criado o Estado hebraico em 1948, ficando com cidadania israelita, mas tendo algumas particularidades, como não entrar no Exército, e sofrendo de discriminação (as câmaras de cidades árabes israelitas têm tipicamente menos financiamento do que outras, por exemplo). Os partidos árabes de Israel têm-se manifestado contra a operação militar israelita em Gaza.
Os líderes dos dois grupos visados, Ahmed Tibi e Jamal Zahalka, condenaram a decisão. Tibi, da Lista Árabe Unida, foi o mais reactivo. "Este é um país racista, mas estamos habituados a este tipo de batalhas e vamos vencer", disse, citado pelo diário anglófono Jerusalem Post. "Foi um julgamento político liderado por um grupo de fascistas e racistas que querem ver o Knesset sem árabes e querem ter um país sem árabes."Durante o debate na comissão, onde têm assento todos os partidos, Tibi acusou Israel de levar a cabo um "genocídio" com a sua operação militar em Gaza.
Não é a primeira vez que partidos de extrema-direita advogam medidas contra os partidos árabes de Israel. Mas esta foi a primeira vez que uma proposta deste género - vinda do partido Yisrael Beitenu, de Avigdor Lieberman, obteve apoio suficiente. Isto deve-se também a uma alteração da lei, feita há dois anos, para permitir afastar quem defenda violência.
Mordechai Kedar, analista do Begin-Sadat Centre for Strategic Studies e professor da Universidade Bar-Ilan, de Telavive, explicou ao PÚBLICO, por telefone, que "os deputados destes partidos estavam a apelar aberta e explicitamente à violência contra o Estado". E lembra que o fundador do Balad, Azmi Bishara, era suspeito de colaboração com o movimento xiita libanês Hezbollah durante a guerra do Verão de 2006 e saiu entretanto de Israel, depois de ter sido aberta uma investigação contra si. Um outro membro do Balad, Said Naffa, espera ainda saber se uma visita que fez a Damasco em 2007 vai resultar num processo criminal por "visita a Estado inimigo" e "contacto com agente estrangeiro".O analista israelita sublinha que a decisão vai estar agora nas mãos do Supremo. Mas Kedar imagina que possa acontecer aos partidos árabes de Israel algo semelhante aos islamistas da Turquia, antecessores do actual (e pós-islamista) AKP. "Terão de mudar: vão ter de concorrer com outro nome, talvez com outras pessoas."Avigdor Lieberman felicitou-se por ter vencido a "primeira batalha". "A segunda batalha é ilegalizar o Balad, porque é uma organização terrorista cujo objectivo é causar danos ao Estado de Israel", disse.
O conselho de colonos Yesha elogiou a decisão. Mas adiantou, segundo o diário de grande circulação Yedioth Ahronoth, que espera mais: "O direito ao voto tem de ser negado a todos os que dêem apoio ao terror contra o povo judaico."A última vez que um partido foi proibido de participar em eleições, lembrou o porta-voz da Comissão Central Eleitoral do Parlamento citado pelo diário israelita Ha'aretz, foi o Kach, nos anos 1980, que defendia a expulsão dos cidadãos árabes de Israel.»
Maria João Guimarães
quarta-feira, 14 de janeiro de 2009
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